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QUEM NÃO DESISTE DA LUTA CONHECERÁ O SABOR DA VITÓRIA (REDUÇÃO DA JORNADA E FIM DA ESCALA 6X1)

Publicado: 29 Maio, 2026 - 00h00

Logo após a Constituinte de 1988, que em seu artigo sétimo consagrou um conjunto de direitos do trabalho, um dos quais a jornada de trabalho de 44 horas semanais (antes da Constituição de 1988 a jornada de trabalho era de 48 horas semanais), a classe trabalhadora brasileira passou a sofrer um sistemático e impiedoso ataque em seus direitos. Durante a década de 90, sofremos uma avassaladora onda de reorganização do trabalho, a chamada reestruturação produtiva, que inaugurou uma nova fase de intensificação do ritmo de trabalho e de mecanismos de controle organizacional. Os trabalhadores perderam o pouco de autonomia que lhes restava. Nesse período, a terceirização, a adoção de salário variável através da chamada participação nos lucros e resultados e o famigerado banco de horas se expandiram velozmente. Foi também uma década de enorme desemprego e explosão da informalidade.


Entramos no novo milênio enfraquecidos, com nossas organizações sindicais sendo atacadas ideologicamente pelo discurso do fim das utopias e pela exacerbação do individualismo. Recentemente, sofremos uma reforma trabalhista que feriu de morte direitos conquistados através de lutas memoráveis. A reforma da previdência, por sua vez, vai obrigar os trabalhadores a permanecer no trabalho até a exaustão final de suas energias. Nossos sindicatos foram estrangulados financeiramente e constrangidos socialmente. Nos locais de trabalho, além da constante introdução de novas tecnologias, ocorre simultaneamente uma insuportável intensificação do trabalho, e os mecanismos de controle se sofisticam de tal maneira que a própria máquina passa a controlar o desempenho do trabalhador. Os ataques à democracia transbordaram para os ambientes de trabalho, tornando as relações mais autoritárias e assediadoras. Além das doenças físicas, como as lesões por esforço repetitivo, sofremos uma verdadeira epidemia de adoecimento mental.
Perdemos muito, mas continuamos lutando. Nos massacraram, mas não nos destruíram. Enquanto houver exploração e enriquecimento extraído do nosso trabalho, haveremos de lutar por direitos. Hoje temos muito para comemorar. A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1, conquistados numa conjuntura tão desfavorável, demonstram que a luta persistente vale a pena.


Tudo isso só foi possível graças à grande sacada do vereador carioca Rick Azevedo que conseguiu pautar nacionalmente esse tema em sua campanha em 2024, à grande adesão das nossas organizações sindicais, que de pronto unificaram e agregaram ao fim da escala 6x1 a jornada de 40 horas. Nada disso seria possível se não tivéssemos na presidência do nosso país um metalúrgico, nordestino e filho do Brasil.


Teremos muito trabalho pela frente. Conquistar a redução da jornada e o fim da escala 6x1 é uma vitória imensa, mas transformar essa vitória em realidade em cada setor de trabalho será um processo de luta diária, caso a caso, empresa por empresa. Os empregadores não vão entregar essa conquista de bom grado. O que não conseguiu impedir no parlamento, tentará anular na prática.


Nossos desafios imediatos são muitos. O primeiro deles é credenciar nossos sindicatos para negociarem esse momento de transição, ou seja, a implantação concreta da redução da jornada e o fim da escala 6x1 em cada local de trabalho. Isso significa preparar tecnicamente os diretores e as diretoras, munir os representantes sindicais de argumentos jurídicos, econômicos e políticos, e garantir que nenhum trabalhador ou trabalhadora seja punido por exigir o cumprimento da lei. A transição não será automática. Haverá empresas que vão tentar protelar, enrolar, dizer que "não dá para mudar a escala agora", que "precisam de prazo", que "o setor não vai suportar". A nossa resposta tem que ser organizada, firme e coletiva.


O segundo grande desafio é reagir à contraofensiva patronal. A história nos ensina que, toda vez que conquistamos um direito, a classe patronal tenta compensar a perda de outra forma. Agora não será diferente. Eles tentarão compensar com precarização dos contratos, oferecendo contratos intermitentes ou temporários no lugar do contrato por tempo indeterminado. Tentarão compensar com a pejotização, forçando o trabalhador a abrir uma empresa de fachada para fazer a mesma função de sempre, sem os mesmos direitos. E tentarão compensar, sobretudo, com a intensificação do trabalho, exigindo que o trabalhador produza em cinco dias o que produzia em seis, sob o discurso mentiroso de que "com menos tempo, tem que render mais". É contra esse movimento que precisamos nos antecipar e nos organizar.


O terceiro desafio é o mais estratégico de todos: utilizar essa conquista para fortalecer a luta de classes no Brasil como um todo. A redução da jornada e o fim da escala 6x1 não podem ser apenas uma pauta isolada, uma conquista que a gente comemora hoje e esquece amanhã. Ela precisa ser um motor para mobilizar os setores mais organizados da nossa classe, aqueles que já trabalham 40 horas semanais, que já conquistaram as duas folgas, mas que seguem exaustos, seguem adoecendo, seguem sem tempo para viver, e impulsioná-los em direção a novas reduções. Em um mundo comandado pelas novas tecnologias e pelo crescimento exponencial da produtividade, cada minuto a menos na jornada é um minuto a mais de vida, de convívio familiar, de estudo, de descanso, de lazer, de organização política. A luta pela redução da jornada não terminou. Ela acabou de ganhar um novo fôlego.