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Ataque mortal na Itália reacende debate sobre exploração de migrantes

Duas pessoas foram detidas após morte de quatro trabalhadores agrícolas queimados vivos no sul do país. Igreja e sindicatos exigem respostas: “Basta de silêncio cúmplice.”

Publicado: 03 Junho, 2026 - 13h48 | Última modificação: 03 Junho, 2026 - 13h56

Escrito por: Tiago Luz Pedro/ Publico | Editado por: CUT-RS

Aldo Pavan/Getty Images
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A morte de quatro trabalhadores agrícolas migrantes, queimados vivos dentro de um automóvel no sul de Itália, voltou a colocar sob escrutínio as condições de exploração a que estão sujeitos milhares de estrangeiros empregados no sector agrícola italiano.

O ataque ocorreu em Amendolara, uma localidade da região de Calábria, e foi captado pelas câmaras de vigilância de uma estação de serviço. As vítimas eram três cidadãos afegãos e um paquistanês. Dois homens de nacionalidade paquistanesa foram detidos pelas autoridades sob acusação de homicídio qualificado.

As imagens divulgadas pelos meios de comunicação italianos mostram dois suspeitos a despejar um líquido inflamável no interior da viatura, estacionada junto a uma bomba de gasolina. Em seguida, o veículo é incendiado, enquanto os agressores bloqueiam as portas para impedir a fuga dos ocupantes.

Um quinto homem, afegão, conseguiu escapar através da bagageira do carro, sofrendo queimaduras nos braços. Em declarações à televisão pública italiana RAI, o sobrevivente afirmou que o ataque aconteceu depois de os trabalhadores terem exigido o pagamento dos salários em atraso.

“Não nos davam dinheiro. Davam-nos comida e alojamento, mas não recebíamos qualquer salário”, relatou. O trabalhador acusou ainda uma rede criminosa ligada ao recrutamento de mão-de-obra migrante de explorar trabalhadores agrícolas estrangeiros em várias regiões de Itália.

O caso reacendeu o debate sobre o fenómeno conhecido como caporalato, um sistema ilegal de recrutamento de trabalhadores, frequentemente controlado por intermediários e organizações criminosas. Aproveitando vulnerabilidades na legislação laboral e migratória, estas redes recrutam migrantes para trabalhar em explorações agrícolas por salários muito abaixo do legal ou, em alguns casos, sem qualquer remuneração.

“Basta de silêncio cúmplice”

A indignação foi imediata. Francesco Savino, vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana, afirmou que o crime “abala a fé na humanidade” e apelou a uma “revolta das consciências” contra a exploração laboral e a indiferença social.

“Basta de silêncio cúmplice. Basta dessa zona cinzenta que vê, sabe e deixa acontecer. Basta da perversidade de considerar normal que homens vindos de longe trabalhem, vivam e morram como corpos sem história”, declarou.

Também a CGIL, a maior central sindical italiana, classificou o homicídio como um “horror indescritível” e exigiu medidas mais eficazes para proteger os trabalhadores agrícolas migrantes.

O presidente da região de Calábria, Roberto Occhiuto, afirmou que o caso levanta “questões profundas sobre a tragédia da migração, a dignidade humana e as responsabilidades de uma sociedade civilizada perante os mais vulneráveis”.

A exploração laboral de migrantes tem sido alvo de crescente atenção em Itália. Em 2024, a morte do trabalhador indiano Satnam Singh, abandonado gravemente ferido pelo empregador após um acidente com maquinaria agrícola, provocou forte comoção pública e levou o Governo de Giorgia Meloni a prometer um reforço das inspecções às explorações agrícolas.

Apesar do aumento da fiscalização e da abertura de novos canais legais de imigração laboral, sindicatos e organizações de defesa dos direitos dos migrantes continuam a denunciar abusos generalizados nos campos italianos, sobretudo nas regiões do sul do país, onde milhares de trabalhadores estrangeiros permanecem dependentes de redes informais de recrutamento.