O eleitor teria dois votos: um para escolher o representante de seu distrito e outro para escolher um partido. O novo sistema contaria com regra de transição a partir de 2030
Uma mudança no sistema eleitoral brasileiro está sendo articulada pelo chamado Centrão e pode alterar profundamente a composição do Congresso Nacional. Sob o argumento de aproximar deputados de suas bases eleitorais, a proposta de adoção do voto distrital misto esconde uma disputa política sobre quem terá condições de conquistar cadeiras no Legislativo.
Atualmente, o Brasil utiliza o sistema proporcional de lista aberta. Os votos recebidos pelos candidatos são somados aos votos de seus partidos ou federações, que conquistam cadeiras conforme seu desempenho eleitoral. É nesse modelo que surgem os chamados puxadores de votos: candidatos com votação expressiva que ajudam a eleger outros nomes da mesma legenda.
O voto distrital misto funciona de outra maneira. O eleitor teria dois votos: um para escolher o representante de seu distrito e outro para escolher um partido. Parte das cadeiras seria ocupada pelos vencedores das disputas regionais e outra parte pelas listas partidárias.
O novo sistema contaria com uma regra de transição para as eleições de 2030 e seria plenamente implementado na eleição de 2034.
A articulação ganhou força depois das eleições de 2026, quando o PL ampliou sua bancada e candidatos com grande votação popular conquistaram espaço no Congresso. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), com mais de 3 milhões de votos, e o deputado federal eleito Lucas Pavanato, também com votação milionária, são exemplos de como uma candidatura pode impulsionar toda uma legenda.
O fenômeno não é exclusivo da direita. A deputada federal Erika Hilton, do PSOL, também teve votação expressiva, demonstrando como lideranças com forte identificação popular podem ampliar a representação de seus partidos.
É justamente essa dinâmica que incomoda setores do Centrão. Com estruturas tradicionais baseadas em lideranças regionais, prefeitos e máquinas partidárias, esses grupos podem ter vantagens em disputas territoriais menores, nas quais a capacidade de mobilização local pesa mais do que uma votação espalhada por todo o estado.
Partidos como PL, PT e PSOL podem ser afetados de maneiras diferentes. O PL pode perder parte da vantagem proporcionada por candidatos que carregam outros nomes da legenda. O PSOL, que depende de lideranças com grande votação e reconhecimento estadual, pode enfrentar dificuldades para transformar votos pulverizados em cadeiras distritais. O PT, apesar de sua capilaridade territorial, também pode perder espaço com a redução do peso da votação proporcional.
Por outro lado, partidos com estruturas regionais consolidadas podem sair fortalecidos. Existe ainda o risco de aumentar a influência de caciques políticos, grupos econômicos e lideranças locais sobre a escolha dos representantes.
Outro ponto preocupante é quem controlará as listas partidárias e como serão definidos os limites dos distritos. Dependendo das regras, dirigentes partidários poderão concentrar ainda mais poder na escolha dos candidatos.
Afinal, mudar a forma de eleger deputados também significa decidir quais setores da sociedade terão voz e representação no Congresso.