MST reúne mais de 3 mil militantes em Salvador
Encontro busca revisar programa político do movimento e se preparar para o próximo período de lutas
Publicado: 20 Janeiro, 2026 - 09h46 | Última modificação: 20 Janeiro, 2026 - 09h51
Escrito por: Brasil de Fato RS | Editado por: CUT-RS
Começou nesta segunda-feira (18), em Salvador (BA), o Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que reúne cerca de 3 mil militantes de todo o país na capital baiana até a próxima sexta-feira (25). O objetivo do evento é avaliar e qualificar as linhas políticas do movimento, revisar e implementar o programa Reforma Agrária Popular, definido no último congresso do MST em 2014, em Brasília (DF), avaliar a estrutura organizativa e os desafios estratégicos, além de discutir os elementos mais definidores da conjuntura política e definir a atuação da organização para o próximo período, incluindo a incidência durante as eleições deste ano. É o que explica Síntia Paula Carvalho, da direção nacional do MST.
“É um encontro que tem objetivos de planejamento, de estudo do capital, de entender a investida do capital sobre os bens da natureza, o próprio socialismo e a luta pela terra. Estamos aqui com mais de 3 mil delegados e delegadas que vêm dos diversos estados, de áreas de assentamento e de acampamentos, além dos nossos parceiros e parceiras que vêm ao longo dos anos contribuindo com o movimento sem terra”, explicou a dirigente.
Ceres Hadich, integrante da Coordenação Nacional do MST, o acontecimento é simbólico, já que a criação do movimento, em 1984, aconteceu a partir de um encontro nacional e esse é um momento em que a organização tem a oportunidade de olhar para dentro.
“O MST, de fato, está passando por um processo de reestruturação organizativa, olhando para os desafios que a gente tem neste período e no próximo período histórico na nossa luta para avançar na construção da reforma agrária popular”, avalia.
“A gente está em Salvador, na Bahia, uma terra de luta, de resistência, que é o começo, o meio e o começo do Brasil de novo. Daqui do Nordeste brasileiro a gente quer fazer uma boa leitura da realidade e apontar os desafios que a gente tem para construir a reforma agrária popular e as lutas da classe trabalhadora no nosso país”, completa Hadich.
Além dos militantes do MST dos 24 estados onde o MST tem atuação, o encontro conta ainda com uma delegação de 100 delegados internacionais. Santiago Vidal é uruguaio, militante do Movimento de Participação Popular, e viajou a Salvador especialmente para participar dos cinco dias de encontro.
“É fundamental o intercâmbio nestes momentos que a região está vivendo. Nós temos, naturalmente, um vínculo histórico com o Movimento Sem Terra. Ver reunidas aqui mais de 3 mil pessoas falando sobre a situação internacional, sobre a realidade nacional e sobre a reforma agrária é fundamental. Um horizonte que para nós no Uruguai talvez hoje pareça distante, mas que foi e continua sendo uma reivindicação histórica”, afirmou Vidal, que se emocionou com a mística de abertura do encontro, em solidariedade ao povo venezuelano e palestino.
“Quando se faz a mística, que é muito própria do Brasil, a gente se emociona e a pele chega a arrepiar, quase vamos às lágrimas. É uma irmandade histórica. Somos países vizinhos, com lutas iguais, reivindicamos a soberania nacional e o anti-imperialismo, questões muito próprias da nossa região e da pátria grande”, comentou.
Manuel Bertoldi veio da Argentina, governada pela extrema direita. Militante do movimento Patria Grande e da Alba Movimentos, ele considera o MST uma referência para a militância popular no seu país.
“Para nós da Argentina, é muito importante compartilhar estas reflexões de ordem global, porque estamos sofrendo as consequências de um governo neofascista que está destruindo todos os direitos trabalhistas da classe trabalhadora e avançando na privatização de todos os nossos recursos naturais. Temos uma tarefa fundamental para os movimentos populares na Argentina, que é construir unidade, elevar a mobilização popular e derrotar este governo que temos hoje”, disse o argentino ao Brasil de Fato.
O primeiro debate esteve centrado na conjuntura política internacional, sobretudo diante da agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e da nova doutrina de segurança estadunidense, que representa ameaça à soberania dos povos da América Latina e do mundo.
Stefanie Weatherbee, integrante da Assembleia Internacional dos Povos (AIP), avalia que diante da investida militar do imperialismo contra os países da América Latina, o movimento popular cumpre um papel crucial.
“Um movimento como o MST tem o papel de convocar as lutas e conscientizar a base sobre o que está acontecendo agora no nosso continente, que é uma tentativa de retomada dos Estados Unidos. Os Estados Unidos querem retomar os nossos países como suas colônias para explorar os nossos recursos ainda mais do que já fazem. Toda organização popular tem esse papel de convocar as lutas, de formar sua militância e de explicar o que está acontecendo”, analisa a ativista que, por outro lado, afasta qualquer pessimismo em relação ao futuro, sobretudo diante da força do movimento popular.

“O que vem acontecendo é um choque de realidade. O imperialismo sempre foi brutal e sempre esteve disposto a fazer o que está dentro das suas capacidades para impor a sua agenda. Só que nessa fase em que ele está mais desesperado, ele atua de formas que talvez nos surpreendam. Eu acho que esse choque de realidade tem a capacidade de nos mobilizar ainda mais. A questão é que não é só nos mobilizar, é também nos organizar e criar os mecanismos para nos mantermos mobilizados, para manter os debates e para analisar continuamente o que está acontecendo”, completa.
Embora os debates internos sejam restritos aos delegados, no entanto, o encontro conta com uma parte aberta ao público da capital baiana, com a tradicional Feira da Reforma Agrária, a Culinária da Terra e o Caminhos da Agroecologia, onde é possível trocar sementes, mudas e saber um pouco mais sobre as práticas de produção agroecológicas.
É nesse espaço onde se encontra o stand da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
“Esse é um momento fundamental para que a gente possa debater com toda a militância a centralidade da luta contra os agrotóxicos e pela construção da agroecologia. Esse é um debate civilizatório. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e a cada ano nós batemos mais um recorde. Então é imprescindível que, na agenda da reforma agrária, esse debate seja assumido com comprometimento e responsabilidade”, afirma Jakeline Pivato, da coordenação da campanha.
A programação inclui ainda noites culturais e um ato político em solidariedade à Venezuela, marcado para a sexta-feira (23), encerrando o encontro.